Banco Master falsificava documentos com Word e PDFs
PF investiga Banco Master que usava Microsoft Office, códigos e PDFs para fabricar documentos falsos em esquema de fraude com R$ 7,15 bilhões

Esquema de produção em massa de documentos falsos
A Polícia Federal identificou um sofisticado esquema de fabricação de documentos falsos no Banco Master que operava como uma verdadeira linha de montagem digital. O banco utilizava ferramentas comuns como Microsoft Office, códigos de programação em C# e softwares de edição PDF para forjar contratos e cessar créditos fictícios. A operação envolvia a extração de dados reais de clientes, produção em massa de documentos, manipulação de assinaturas digitais e remoção sistemática de informações que pudessem revelar a verdadeira origem dos arquivos.
Os passos da operação fraudulenta
Extração de dados de clientes reais
O primeiro passo da fraude consistia em extrair dados legítimos de clientes que haviam realizado operações genuínas com o banco. Em 2 de julho de 2025, funcionários do Banco Master acessaram informações armazenadas nos sistemas internos, incluindo dados relacionados ao CredCesta, um produto de crédito consignado destinado a servidores públicos, aposentados e pensionistas. Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, um levantamento de CPFs que foi armazenado no arquivo cpf_cessao.csv. Posteriormente, uma consulta ao banco de dados interno gerou uma planilha contendo informações cadastrais dos clientes, como nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe, que serviriam como matéria-prima para a montagem fraudulenta de documentos.
Produção de procurações em lote
Com os dados reunidos, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou a função de mala direta do Microsoft Word para gerar procurações em massa. Este recurso permite vincular um modelo de documento a uma planilha e preencher automaticamente campos diferentes para cada registro. Allan vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, permitindo gerar 2.700 procurações em lote no dia 20 de junho de 2025. A tecnologia não se limitava apenas ao armazenamento dos documentos falsos, mas permitia reproduzir rapidamente a mesma estrutura documental para centenas ou milhares de pessoas.
Separação de páginas de assinatura com programação
A produção dos documentos envolvia também a área de tecnologia do Banco Master. Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. desenvolveram aplicações em C# registradas no repositório GitHub do banco com uma finalidade específica: extrair de arquivos PDF apenas a segunda página, que correspondia à página de assinatura dos documentos originais. A perícia identificou um arquivo compactado denominado erros-whatsapp.zip que continha 1.833 arquivos PDF com páginas de assinatura isoladas dos Termos de Consentimento, permitindo que essas páginas fossem reutilizadas na montagem de novos conjuntos de documentos falsos.
Assinatura digital e manipulação de datas
As Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) foram assinadas digitalmente utilizando o certificado corporativo do Banco Master e certificados individuais de funcionários. Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva extraíram lotes de documentos do sistema idtrust, e em 20 de junho, Fabrizio organizou uma força-tarefa para assinar os arquivos. Foram separados 675 CCBs para cada um de quatro operadores. As assinaturas foram aplicadas pelo Adobe Acrobat Reader, gerando registros criptográficos que contraditavam as datas escritas nos documentos. Por exemplo, um documento podia indicar a data de 21 de janeiro de 2025, mas o registro da assinatura digital comprovava que o arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.
Eliminação sistemática de rastreabilidade
Remoção de informações de data e hora
Para evitar que os documentos exibissem registros capazes de revelar sua origem, Allan Machado solicitou a Moacir Lourenço da Silva Junior que removesse as informações de data e hora dos Termos de Consentimento. Uma conversa no Teams de 20 de junho registra essa ordem clara: 'e precisamos excluir a data'. A perícia identificou um exemplo concreto em um Termo de Consentimento que originalmente apresentava o registro 24/02/2023 13:05. Em uma edição realizada em 3 de julho de 2025, esse campo foi apagado visualmente, embora outros registros do arquivo e da assinatura digital permitissem reconstruir a cronologia real dos eventos.
Alteração de comprovantes bancários
A tentativa de apagar rastros se estendeu aos comprovantes bancários. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração de comprovantes de transferências realizadas por SPB e PIX. O objetivo era remover o evento, o número do contrato e o histórico, que apresentava a expressão 'LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX'. Romy explicou que conseguia alterar um ou outro documento, mas que seria impossível fazer o mesmo manualmente em 2.700 comprovantes, revelando os limites da linha de montagem fraudulenta.
Estrutura triangular da fraude
A relação entre Tirreno Consultoria, Banco Master e Banco de Brasília (BRB) funcionava como um esquema de simulação e repasse de ativos ilíquidos. A Tirreno atuou como empresa de fachada, criada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado com o Banco Master, que utilizava essas carteiras sem lastro para vendê-las ao BRB. A investigação identificou que os documentos finais eram organizados em pastas de rede com nomes como 'Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras', 'Demanda BRB-Tirreno 299 amostras' e 'Demanda BRB-Tirreno 119 amostras', e que amostras dessa documentação falsificada chegaram até a cúpula do banco.
Preocupações com auditoria externa
As mensagens reunidas pela investigação mostram que a preocupação não era apenas produzir os documentos fraudulentos, mas explicar as inconsistências caso fossem questionadas. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria da Deloitte estava cobrando informações. A resposta foi direta: 'esse tem que falar que foi erro operacional na selecao'. Dois dias antes, Fabrizio e Alberto haviam discutido o envio à Deloitte de documentos referentes à carteira da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025, indicando que a cobertura da fraude envolvia também o relacionamento com auditores externos.
Vestígios digitais que delataram a operação
Apesar de todos os esforços para eliminar a rastreabilidade, a própria estrutura digital dos documentos deixava vestígios incontornáveis. O choque entre as datas escritas nas CCBs e os registros das assinaturas digitais configurou uma das evidências mais fortes da manipulação. A perícia conseguiu identificar que documentos apresentados com datas anteriores haviam sido assinados apenas posteriormente, comprovando que a sequência de arquivos fabricados em 2025 era apresentada como documentação de operações realizadas anos antes. A operação dependia não apenas da criação de documentos falsos, mas também de uma segunda frente de atuação: apagar ou modificar informações que pudessem revelar como e quando aqueles documentos haviam sido produzidos.