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Baterias de carros elétricos: críticas são justas?

Entenda as críticas sobre baterias de carros elétricos, mineração e impacto ambiental. Descubra se as preocupações com poluição e exploração são legítimas ou de...

Baterias de carros elétricos: críticas são justas?
Fonte: g1.globo.com/carros/noticia/2026/07/11/as-criticas-as-baterias-dos-carros-eletricos.ghtml

O boom dos veículos elétricos e suas vulnerabilidades

As baterias de carros elétricos tornaram-se foco de intenso debate enquanto os veículos de propulsão elétrica experimentam crescimento exponencial em mercados globais. Desde a crise de abastecimento de petróleo desencadeada por conflitos geopolíticos, as vendas de carros elétricos apresentam números impressionantes. Na Austrália, as transações saltaram mais de 150% em abril comparado ao período anterior, enquanto a região Ásia-Pacífico registrou expansão de 80% nos primeiros três meses de 2026, excluindo a China onde o mercado já se estabilizou.

A América Latina testemunhou aumento de aproximadamente 75% nas vendas de veículos elétricos, e a Europa registrou crescimento de quase um terço, conforme dados da Agência Internacional de Energia (AIE). Fatih Birol, diretor-executivo da AIE, declarou em maio que esses números recordes representam "alívio considerável em meio ao maior choque de oferta de petróleo da história", com expectativas de que a redução nos preços das baterias impulsione ainda mais a expansão setorial.

Apesar desse crescimento promissor, as baterias de carros elétricos permanecem como o componente mais dispendioso e um dos principais pontos frágeis desses veículos. As preocupações levantadas por críticos abrangem segurança, impacto ambiental e questões éticas relacionadas à cadeia de suprimento global.

Incêndios em veículos elétricos: realidade ou mito?

Detratores dos carros elétricos argumentam frequentemente que as baterias de íons de lítio apresentam maior risco de ignição e que incêndios nesses veículos são consideravelmente mais difíceis de extinguir comparados aos automóveis com motores de combustão interna. Contudo, essa narrativa desconsidera evidências técnicas importantes.

Dados técnicos e estudos independentes demonstram que veículos com motor de combustão apresentam propensão significativamente maior a incêndios espontâneos comparados aos carros elétricos. A estrutura das baterias modernas inclui sistemas de proteção térmica avançados que reduzem substancialmente os riscos de falha catastrófica.

Peso das baterias e infraestrutura viária

Críticos também apontam o peso expressivo das baterias de carros elétricos como possível responsável por danos acelerados nas estruturas viárias. No entanto, especialistas contestam essa tese fundamentando-se em dados empíricos. Os principais agentes causadores do desgaste das rodovias são, comprovadamente, os caminhões de grande tonelagem e pesados, não os carros elétricos de passageiros.

A questão do cobalto e a cadeia de suprimento mineral

A presença de minerais como cobalto e níquel nas baterias de carros elétricos sempre despertou preocupações legítimas quanto às condições de extração, especialmente nas operações de mineração da República Democrática do Congo (RDC). Em março, o programa jornalístico australiano Spotlight divulgou investigação sobre minas de cobalto operadas por empresas chinesas no território congolês, revelando ambientes onde milhares de trabalhadores, incluindo menores, laboram em condições precárias e altamente poluídas.

O programa apresentou o cobalto como "elemento-chave em praticamente todas as baterias de armazenamento mundial, desde veículos elétricos até sistemas residenciais", argumentando que a busca por um futuro "limpo e verde" baseado em energias renováveis comporta "custos mortais e devastadores".

Evolução tecnológica e eliminação do cobalto

Críticos dessa cobertura jornalística apontaram uma omissão significativa: a composição química das baterias de carros elétricos migrou amplamente para a tecnologia de fosfato de ferro-lítio (LFP), que prescinde inteiramente do cobalto. David McElrea, diretor-executivo do Smart Energy Council, organização australiana ligada ao setor energético e defensora de energias renováveis, questiona por que a reportagem focou exclusivamente nas baterias de veículos elétricos quando dispositivos como celulares, tablets e computadores portáteis também contêm cobalto em suas estruturas.

McElrea reconhece que temores sobre exploração nas extensas cadeias de suprimento de minerais críticos são fundados, mas assinala que a indústria de carros elétricos reagiu ativamente às preocupações sobre origem dos materiais, fomentando inovações que eliminaram o cobalto da maioria das baterias automotivas contemporâneas.

Neeraj Sharma, professor de química na Universidade de Nova Gales do Sul, complementa que composições químicas mais econômicas, como as baterias de íons de sódio, chegam ao mercado. "Os fabricantes de veículos elétricos afastam-se do cobalto porque ele é custoso, tóxico e apresenta dilemas éticos significativos", afirma.

A guerra narrativa sobre minerais críticos

Especialistas identificam uma "guerra de narrativas" em torno dos minerais críticos utilizados em tecnologias renováveis. O instituto canadense Fraser Institute, de orientação conservadora e próximo aos setores de combustíveis fósseis, afirmou em 2023 que seriam necessárias aproximadamente 400 novas minas de minerais críticos para atender à demanda futura por carros elétricos.

Kenneth P. Green, autor do estudo e defensor histórico de investimentos em combustíveis fósseis "acessíveis", declarou que "o risco de que a produção mineral e a mineração não acompanhem a demanda projetada por veículos elétricos é expressivo".

Contraditoriamente, a Agência Internacional de Energia, em seu relatório Global EV Outlook 2026, afirma que as reservas geológicas conhecidas de minerais críticos são suficientes para satisfazer a demanda de longo prazo por carros elétricos, inclusive em cenários de eliminação progressiva da maioria dos automóveis movidos a combustíveis fósseis. A agência, entretanto, sinaliza que a concentração elevada da produção de baterias na China representa riscos potenciais para as cadeias globais de suprimento.

A AIE também destaca que o avanço das baterias de íons de sódio, dispensárias de lítio, reduzirá significativamente a demanda por minerais críticos. Além disso, a organização preconiza expansão acelerada da reciclagem de minerais utilizados em baterias como mecanismo para ampliar a transparência e a resiliência das cadeias de suprimento.

Diferenciando críticas legítimas de desinformação

A questão central permanece: como discernir preocupações genuínas sobre impactos ambientais da mineração de narrativas desinformativas sobre as cadeias de suprimento dos carros elétricos?

McElrea sustenta que existe um "ataque direcionado" contra os veículos elétricos, perpetrado por mídias alinhadas aos combustíveis fósseis. Contrastivamente, Vlado Vivoda, especialista em minerais críticos e segurança energética da Universidade de Queensland, afirma que nem toda crítica é necessariamente coordenada ou feita de má-fé.

"Muitas preocupações relacionadas à extração mineral, processamento, condições laborais, impactos no solo, resíduos e concentração das cadeias de suprimento são genuinamente reais", assinala Vivoda. Essa realidade facilita o questionamento de narrativas pró-transição energética que apresentam energia limpa como "imaculada".

Philip Newell, copresidente de comunicação da coalizão global Climate Action Against Disinformation, enfatiza que preocupações reais com injustiça na extração de recursos devem começar pelo fortalecimento das comunidades afetadas pela mineração, seja através de participação nos lucros da atividade ou mediante aplicação rigorosa de legislações ambientais e trabalhistas.

Contexto de crise energética alimenta desinformação

Vivoda argumenta que "os esforços para deslegitimar as tecnologias limpas" relacionam-se com a crise energética global atual. Propor que tecnologias limpas são "tão prejudiciais quanto, ou piores que, sistemas baseados em combustíveis fósseis" gera inércia que atrasa a transição energética necessária.

Simultaneamente, Vivoda sustenta que a transição para economia de baixo carbono precisa oferecer transparência nas cadeias de suprimento frequentemente ausente no setor de combustíveis fósseis. "A resposta apropriada não é idealizar a tecnologia limpa, mas comparar sistemas de forma honesta e administrar novas cadeias de suprimento substancialmente melhor que as antigas", conclui.

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