Escafandristas reinterpretam Buarque com sofisticação
Quarteto carioca lança álbum com 15 músicas de Chico Buarque em reinterpretações sofisticadas. Confira a crítica completa do novo trabalho dos Escafandristas.

Quarteto carioca homenageia compositor com álbum inovador
O grupo carioca Escafandristas acaba de lançar seu primeiro álbum homônimo dedicado às composições de Chico Buarque. A obra, apresentada estrategicamente na véspera do 82º aniversário do compositor, reúne 15 músicas do acervo de Chico em uma proposta que vai muito além de simples regravações, consolidando-se como um projeto de reinterpretação artística sofisticada que respeita as criações originais sem se prender aos arranjos clássicos.
Uma proposta além do convencional
Formado em 2024 com a missão de oferecer novas perspectivas sobre o cancioneiro de Chico Buarque, o Escafandristas não se enquadra na categoria tradicional de covers. Sob a direção musical de Thiago Amud, que também atua como vocalista e violonista, o grupo composto ainda por Alice Passos (voz, flauta, violão e percussão), Luisa Lacerda (voz e violão) e Renato Frazão (voz e baixo) promoveu alterações deliberadas nas harmonizações e estruturas rítmicas das composições.
As melodias e letras originais foram mantidas com reverência, porém a sofisticação harmônica caracteriza o trabalho. A abordagem é tão distinta que torna o álbum completamente inapropriado para fins de karaokê, especialmente pela refinada harmonização vocal que marca cada faixa. Este é precisamente o diferencial que posiciona Escafandristas Buarque como um projeto artístico genuíno.
Destaque musical e arranjos inovadores
A abertura do álbum com "Construção" (1971) demonstra a capacidade do grupo em se desvencilhar completamente dos arranjos originais criados pelo maestro Rogério Duprat. A reinterpretação consegue estabelecer uma identidade própria mantendo a essência da composição.
O dueto entre Thiago Amud e Luísa Lacerda em "Morro Dois Irmãos" (1989) revela uma afinidade vocal impressionante entre o intérprete e o compositor original. Esta compatibilidade vocal também se evidencia nas participações de Renato Frazão, particularmente notável no solo do samba "Cotidiano" (1971). Nesta gravação, o arranjo evoca genialmente a repetição da rotina conjugal através de pausas sincronizadas com os versos da letra, criando uma experiência auditiva singular.
Citações inteligentes e referências literárias
O projeto inclui sete citações musicais estrategicamente inseridas em seis das 15 faixas, demonstrando erudição musical e criatividade interpretativa. "Futuros Amantes" (1993) incorpora referência a "Eu te Amo" (Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim, 1980), enquanto "Corrente" (1976) dialoga com "Mamberibe" (1972). O samba "Morena dos Olhos d'Água" (1966) é enriquecido com menção a "Morena do Mar" (1972) de Dorival Caymmi, além da ciranda "Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa" (Chico Buarque e Edu Lobo, 1988).
Participações especiais que marcam presença
Uma sequência particularmente emocionante ocorre em "O que Será (À Flor da Terra)" (1976), quando Ruy Guerra, parceiro histórico de Chico em "Fado Tropical" (1973), recita versos diante de uma interpretação majoritariamente a capella do quarteto. Este momento ressalta a importância das colaborações na obra buarquiana.
Outro destaque significativo é a participação inédita das cinco netas de Chico Buarque - Cecília, Clara, Irene, Lia e Teresa - reunidas em estúdio pela primeira vez. As netas interpretam "As Minhas Meninas" (1987) com citação do "Acalanto para Helena" (1971), canção de ninar composta por Chico para sua filha Helena, mãe de Clara e Cecília. Esta participação familiar adiciona dimensão afetiva genuína ao projeto.
Finalização e reflexão artística
O álbum encerra com a delicada interpretação de "Tempo e Artista" (1993), que sintetiza a proposta geral do trabalho. Através desta coletânea, o Escafandristas (re)modela a obra do compositor renomado conforme sua estética sofisticada, em um momento histórico onde as composições de Chico Buarque já alcançaram status de clássicos imortais, transcendendo gerações e consolidando seu legado entre os maiores artistas brasileiros de todos os tempos.