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IA desenha vírus inéditos em laboratório

Inteligência artificial criou pela primeira vez genomas completos de vírus que não existem na natureza. Conheça o avanço e os riscos da descoberta.

IA desenha vírus inéditos em laboratório
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Marcos científicos: quando a inteligência artificial desenha vírus

Uma equipe internacional de pesquisadores alcançou um feito sem precedentes: a inteligência artificial conseguiu desenhar vírus que nunca existiram na natureza. Pela primeira vez, cientistas utilizaram algoritmos avançados não apenas para criar genes isolados, mas para desenhar o genoma completo — todo o conjunto de instruções genéticas necessárias para que um organismo funcione, se reproduza e infecte um hospedeiro. O estudo, divulgado na revista científica Science na quinta-feira 6 de fevereiro, marca um avanço extraordinário na área de biologia sintética.

O papel do sistema Evo nos laboratórios modernos

Pesquisadores do Arc Institute e da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, desenvolveram uma abordagem inovadora utilizando um sistema de IA denominado Evo. Este modelo funciona de maneira semelhante ao ChatGPT e outros softwares de linguagem natural: enquanto estes aprendem a prever a próxima palavra em uma sentença, o Evo foi programado para prever sequências de DNA — as bases A, C, G e T que compõem nosso código genético. Para alcançar tal precisão, os pesquisadores alimentaram o sistema com material genético proveniente de milhões de bactérias, plantas, animais e vírus, permitindo que a inteligência artificial desenha vírus com características funcionais.

Bacteriófagos: vírus seguros para pesquisa avançada

Após o treinamento, o sistema foi direcionado especificamente para criar genomas de bacteriófagos — organismos que infectam exclusivamente bactérias e são completamente inofensivos para os seres humanos. Como referência, os cientistas utilizaram o ΦX174, um vírus pequeno e extraordinariamente estudado, cujo genoma contém aproximadamente 5.400 bases, significativamente menor que as cerca de 500 mil bases do genoma bacteriano mais simples, e imensamente inferior às 3 bilhões de bases do DNA humano.

A estrutura do genoma funciona como um extenso manual de instruções: o que diferencia um organismo de outro não são as letras disponíveis, mas sua sequência específica. O genoma representa o conjunto completo destas instruções, incluindo os segmentos que determinam quando e como cada componente deve ser ativado.

Resultados da síntese: vírus viáveis criados por computador

O sistema gerou centenas de milhares de propostas de genomas diferentes. A equipe selecionou as alternativas mais promissoras, solicitou a síntese em laboratório de aproximadamente 300 variantes e as testou contra bactérias E. coli. Os resultados foram notáveis: 16 desses vírus criados por computador se mostraram viáveis, conseguindo se multiplicar e destruir as bactérias, funcionando exatamente como um vírus natural.

É como se a inteligência artificial tivesse aprendido a gramática fundamental da vida — as regras que permitem um gene funcionar adequadamente ao lado de outro — sem jamais ter recebido ensino explícito sobre tais mecanismos, apenas observando milhões de exemplos naturais.

Superioridade contra resistência bacteriana

O resultado mais impressionante, contudo, revelou algo ainda mais promissor: quando os pesquisadores expuseram os vírus artificiais a bactérias que haviam desenvolvido resistência ao vírus natural ΦX174, uma combinação dos vírus gerados pela inteligência artificial conseguiu vencer essa resistência — algo que um coquetel de vírus naturais similares não conseguiu realizar. Esta descoberta sugere que no futuro, a tecnologia pode auxiliar na criação de tratamentos contra infecções bacterianas resistentes a antibióticos, um problema cada vez mais preocupante na medicina contemporânea.

Preocupações éticas e segurança biológica

Apesar do entusiasmo com os avanços, os próprios pesquisadores e especialistas em biossegurança apontam riscos significativos. Se uma inteligência artificial consegue reconstruir as regras que permitem montar um vírus funcional do zero, existe preocupação legítima de que, futuramente, tecnologias similares possam ser utilizadas para desenhar patógenos perigosos, capazes de infectar pessoas, animais ou plantas.

A equipe implementou uma série de precauções rigorosas: o sistema não recebeu nenhuma informação genética de vírus que infectam humanos durante o treinamento, e sequências de vírus que atacam animais, plantas ou fungos foram deliberadamente excluídas. Todo o trabalho foi conduzido no nível de segurança laboratorial recomendado para bacteriófagos, considerados de baixo risco.

Governança e regulação ainda insuficientes

Cientistas ligados à biossegurança afirmam que a governança sobre esse tipo de tecnologia — envolvendo leis, protocolos e métodos de fiscalizar o acesso a ferramentas de inteligência artificial e à síntese de DNA — ainda não evoluiu no mesmo ritmo que os avanços científicos. Simon Jackson, pesquisador da Universidade de Waikato que não participou do estudo, comentou ao Science Media Centre que "projetar bacteriófagos maiores, controlar de forma confiável quais bactérias eles infectam e comprovar segurança e eficácia em pacientes são etapas que ainda estão por vir".

Distância entre laboratório e ameaça real

É importante ressaltar que os vírus criados nesse experimento estão muito longe de representar qualquer ameaça à saúde humana: conseguem infectar apenas uma linhagem específica e inofensiva de E. coli utilizada em ambientes laboratoriais. Tampouco se trata de "vida artificial", já que vírus nem sequer são considerados organismos vivos por grande parte da comunidade científica, pois não conseguem se reproduzir independentemente — necessitam estar dentro de células hospedeiras para se replicarem. Para atingir organismos realmente vivos, mesmo os mais simples, seria necessário um salto muito maior de complexidade, conforme reconhecem os pesquisadores responsáveis pela pesquisa.

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