Juliane Gamboa relança clássico de Ivan Lins em homenagem a Marli Coragem
Juliane Gamboa e Ivan Lins gravam juntos 'Coragem mulher', música de 1980 que exalta a mulher que denunciou execução pela PM no Rio de Janeiro.

Juliane Gamboa e Ivan Lins ressuscitam clássico que homenageia Marli Pereira Soares
A cantora e compositora Juliane Gamboa retoma neste ano uma composição marcante de Ivan Lins em parceria com Vitor Martins para criar novo single de grande relevância histórica e social. A faixa Coragem mulher ganha versão inédita com a participação do próprio Ivan Lins, celebrando a trajetória de uma mulher que enfrentou a Polícia Militar carioca em circunstâncias extremas há mais de quatro décadas.
O single será lançado pela gravadora Biscoito Fino em 20 de agosto, marcando um retorno consciente a um registro musical pouco conhecido, mesmo entre admiradores de Ivan Lins. A escolha de Juliane Gamboa em ressignificar essa obra reflete seu compromisso com narrativas que amplificam vozes frequentemente silenciadas pela historiografia oficial brasileira.
A história de Marli: resistência contra a violência estatal
No dia 13 de outubro de 1979, Paulo Pereira Soares, então com 18 anos, foi assassinado no bairro de Vila Pauline, em Belford Roxo (RJ), por disparos efetuados por policiais do 20º Batalhão de Polícia Militar. Sua irmã, Marli Pereira Soares, presenciou o crime e tomou uma decisão que demandaria extraordinária coragem: denunciar os responsáveis pela execução.
Nascida em 1954 na Favela do Pinto, Marli enfrentou ameaças diretas contra sua vida e a de sua família para comparecer ao batalhão, à delegacia e apontar pessoalmente os policiais envolvidos na morte de seu irmão. Sua atitude desafiadora conquistou a admiração de setores progressistas, que a apelidaram de Marli Coragem, consolidando seu nome na memória de resistência contra a brutalidade policial no estado do Rio de Janeiro.
O preço de um testemunho corajoso
A trajetória de Marli não se limitou ao primeiro crime. Em 13 de janeiro de 1993, exatos 14 anos após a execução de Paulo, seu filho Sandro, com apenas 15 anos, foi também assassinado por um policial. A dupla perda na mesma família evidencia padrões sistêmicos de violência que persistem nas favelas cariocas, mesmo quando há testemunhas dispostas a falar.
Atualmente com aproximadamente 72 anos de idade, Marli permanece como símbolo vivo dessa resistência, embora tenha presumivelmente mudado de localidade e identidade para garantir sua segurança pessoal.
A música como ferramenta de memória e justiça
Ivan Lins e Vitor Martins criaram Coragem mulher em 1980, incluindo-a no álbum Novo tempo do cantor, como um ato de solidariedade artística. Segundo Ivan Lins, a composição também funcionava como mecanismo de proteção simbólica para Marli, ampliando sua visibilidade através da arte.
Décadas depois, a escolha de Juliane Gamboa em gravar essa faixa representa mais que uma reinterpretação musical: constitui um ato político de resgate de memória. A artista, lançadora do aclamado álbum Jazzwoman em 2024, encontrou profunda afinidade com a narrativa de resistência feminina encapsulada na composição.
Perspectiva da nova geração de artistas
Juliane Gamboa declarou estar tocada pela história de Marli e surpreendida por não ter conhecimento prévio sobre a mulher, mesmo atuando há anos no movimento negro. Para a cantora, tudo aquilo que a música simboliza conecta-se intimamente com sua própria identidade e com as histórias de resistência nas trajetórias das mulheres de sua família.
Ivan Lins, por sua vez, manifestou esperança de que a reinterpretação de Juliane mobilize consciências coletivas. O artista ressaltou que a arte é intrinsecamente política e que compete às novas gerações comprometer-se com a melhoria humanística do Brasil, particularmente diante do crescimento da intolerância racial, social e religiosa em escala global.
Produção e lançamento do single Coragem mulher
O single foi gravado nos estúdios da Biscoito Fino no Rio de Janeiro, contando com arranjos e produção musical assinados por Diego do Valle. A direção musical ficou a cargo da própria Juliane Gamboa, garantindo coesão artística entre a visão contemporânea da intérprete e a integridade histórica da composição original.
O lançamento oficial ocorrerá em 20 de agosto de 2026, pela Biscoito Fino, consolidando este ano como momento significativo para a retomada de narrativas frequentemente negligenciadas pela indústria fonográfica brasileira.
Impacto cultural e reflexão social
A colaboração entre Juliane Gamboa e Ivan Lins em torno dessa faixa representa mais que uma simples regravação. Funciona como ponte entre gerações de artistas comprometidos com a justiça social, mantendo viva a memória de mulheres que enfrentaram estruturas de poder responsáveis por violências inumeráveis.
Em um contexto contemporâneo marcado por continuadas vulnerabilidades nas favelas e periferias brasileiras, Coragem mulher ressurge não apenas como documento histórico, mas como convocação ética para o presente, recordando que a luta de Marli Pereira Soares permanece inacabada e necessária.