Mateus Aleluia apresenta show solo transcendental no Rio
Mateus Aleluia faz apresentação solo no Teatro Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro, cantando com voz e violão em espetáculo de alta carga espiritual e ancestralida...

Mateus Aleluia leva ao Rio experiência transcendental de voz e violão
Na noite de sábado, 11 de julho, o Teatro Nelson Rodrigues, na cidade do Rio de Janeiro, recebeu uma apresentação memorável de Mateus Aleluia, o consagrado integrante dos Tincoãs. O show solo Mateus Aleluia reuniu público lotado para vivenciar uma experiência única, onde apenas a voz grave e profunda do artista baiano de 82 anos e seu violão ocupavam o palco, criando uma atmosfera de serenidade e conexão espiritual.
Assistir a um espetáculo dessa magnitude exige mais que presença física. É necessário desligar-se do relógio acelerado das urgências cotidianas e adentrar o tempo sereno do artista, uma divindade encarnada que desce ao palco carregado de ancestralidade. Mateus Aleluia, conhecido carinhosamente como Seu Mateus, expressou-se ao público sobre a essência de sua arte: "O canto fala tudo o que sentimos sem contornos. É uma linguagem espiritual. Falamos de dentro". Essa máxima resume a profundidade de cada nota entoada durante toda a apresentação.
A raridade das apresentações cariocas de Mateus Aleluia
A presença de Mateus Aleluia no Rio de Janeiro em shows solos é rara nos palcos cariocas. Desconsiderando uma apresentação em festival no ano de 2022, a última vez que o cantor realizou um espetáculo em formato solo na capital fluminense ocorreu em 2017. Essa escassez torna cada apresentação um evento especial e altamente aguardado pelos admiradores de sua obra.
A turnê do artista pela Caixa Cultural contava com duas datas no Rio: a estreia de sábado, 11 de julho, e uma segunda apresentação marcada para domingo, 12 de julho, que já apresentava ingressos esgotados no momento da primeira apresentação. Poucos meses antes, o próprio crítico que acompanhou o espetáculo carioca presenciou um show de Aleluia em Salvador, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em novembro de 2025, onde a Orquestra Afrosinfônica, sob a regência do maestro Ubiratan Marques, dividiu a cena com o artista.
A transcendência presente no canto e na ancestralidade
O transcendental permeia cada momento da apresentação de Mateus Aleluia. O roteiro musical aberto com "Homem! O animal que fala" (2009) demonstra a intenção do artista de explorar temas profundos e existenciais. Conforme o show transcorria, tornava-se evidente que Mateus Aleluia encarna uma qualidade que o gilbertista Gilberto Gil uma vez atribuiu a Dorival Caymmi (1914-2008): a de um "Buda Nagô".
Enquanto resgata memórias afetivas de sua rica vivência na África e em sua cidade natal de Cachoeira (BA), Mateus Aleluia canta a nobreza do amor de forma que o público se vê envolvido em uma atmosfera de paz e serenidade. Seu canto, que brota de fontes profundas, harmoniza o espírito daqueles que conseguem se entregar plenamente à experiência. Compreender a dimensão verdadeira dessa música requer uma abertura para algo além do mundo físico, uma aceitação do sagrado que permeia toda a expressão artística do cantor.
Músicas que carregam história e espiritualidade
Durante o espetáculo, o público desfrutou de composições com profundo significado espiritual, como "Sonhos cor de criola" e "Filho de rei", ambas do álbum "Fogueira doce" (2020). A música-título desse disco fechou a apresentação, encerrando o show sem encores, permitindo que a última nota ecoasse de forma definitiva. Em "Eu vi Obatalá", composição de 2017, Mateus Aleluia proclama uma verdade que poucos ousariam questionar: sua visão mística de divindades espirituais é absoluta e inquestionável.
Um dos maiores sucessos do repertório de Mateus Aleluia, "Cordeiro de Nanã" (composição de Mateus Aleluia e Dadinho, de 1977), foi entregue ao público entrelaçado com um lamento em forma de fala. Essa abordagem revela uma característica fundamental do canto do artista: ele transporta consigo as dores históricas do povo negro atravessando séculos. Porém, essas dores são amenizadas pela sabedoria adquirida por aqueles que encontraram a paz de espírito e que extraem da música o alimento essencial para a alma.
O encerramento e o legado espiritual deixado
Ao final do show solo Mateus Aleluia no Rio, o artista agradeceu o público e revelou estar "abastecido". Paradoxalmente, foi o próprio Mateus Aleluia quem abasteceu a audiência com uma música capaz de alimentar profundamente a alma e emanar vibrações positivas que acalmam quem consegue se entregar completamente à experiência. O Teatro Nelson Rodrigues saiu do espetáculo diferente, carregando consigo a energia espiritual deixada por um "orixá vivo" em sua manifestação artística.
A apresentação consolidou o status de Mateus Aleluia como um artista singular no cenário musical brasileiro, alguém cuja existência transcende a simples execução de música, transformando cada show em um ritual de reconexão com o sagrado e com a história ancestral. Para aqueles presentes, foi mais do que um espetáculo musical: foi uma experiência transformadora que alimenta a alma e resgata a memória coletiva de um povo.