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Proibição de redes não é solução, alerta psicóloga

Psicóloga canadense questiona proibição de redes sociais para jovens. Estudos mostram efeitos pequenos. Saiba mais sobre saúde mental adolescente.

Proibição de redes não é solução, alerta psicóloga
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

O debate sobre redes sociais e saúde mental adolescente

A discussão sobre redes sociais jovens e seus impactos na saúde mental ganhou força nos últimos anos, gerando propostas de restrição em diversos países. No entanto, a psicóloga canadense Candice Odgers, especialista em psicologia do desenvolvimento pela Universidade da Califórnia em Irvine, apresenta uma perspectiva diferente baseada em evidências científicas.

Em um TED Talk com mais de 260 mil visualizações, Odgers afirma que simplesmente proibir redes sociais não resolverá a crise de saúde mental entre adolescentes. Segundo ela, existe uma distância enorme entre a narrativa dominante nos meios de comunicação e o que a maioria dos estudos científicos realmente encontrou até o momento.

O que mostram as pesquisas sobre redes sociais

Odgers dedicou 25 anos estudando a saúde mental de crianças e adolescentes. Conforme sua análise, centenas de estudos e metanálises examinaram a relação entre tempo de tela e bem-estar, descobrindo que essa associação explica menos de 1% da variação nos problemas de saúde mental. Em outras palavras, 99% das razões pelas quais jovens enfrentam depressão ou ansiedade relacionam-se a outros fatores.

Quando especificamente analisam-se redes sociais, os estudos encontram correlações mínimas que tendem a desaparecer quando controlam-se outros fatores relevantes, como traumas na infância, histórico familiar e saúde mental dos pais. A psicóloga enfatiza que, mesmo quando indicam correlações, não fica clara a direção da relação causal.

Uma metanálise específica sobre meninas, redes sociais e depressão encontrou uma correlação relativamente pequena. Essas associações reduzidas para próximo de zero quando investigadas de forma rigorosamente controlada, de acordo com Odgers.

Regulação versus proibição: a abordagem correta

Embora Odgers questione a eficácia da proibição, ela não nega a necessidade de regulação. A psicóloga enfatiza que as empresas de tecnologia devem ser responsabilizadas por garantir a segurança das plataformas. No entanto, expulsar jovens completamente das redes pode ter efeitos contraproducentes.

Na Austrália, primeiro país a proibir menores de 16 anos em plataformas como Facebook, Instagram e TikTok, pesquisas mostram que 85% dos jovens continuam acessando as redes mesmo após a proibição. Muitos conseguem burlar as restrições entrando em versões para adultos, eliminando controles parentais e filtros de conteúdo que antes os protegiam.

O Brasil adotou uma abordagem diferente com o ECA Digital, que entrou em vigor em março. Em vez de simplesmente proibir, a legislação estabelece restrições de conteúdo e controles de segurança para melhorar a experiência online para todos os usuários, incluindo menores.

Causas complexas da crise de saúde mental

Odgers concorda que existe uma crise de saúde mental real entre jovens em muitos países, mas afirma que as causas são multifatoriais. Nos Estados Unidos, por exemplo, suicídios entre jovens começaram a crescer após a Grande Recessão de 2008, quando preocupações econômicas aumentaram significativamente.

Além disso, os adolescentes relatam preocupações crescentes com segurança nas escolas, instabilidade política, questões de justiça social e mudanças na estrutura das comunidades. Todos esses fatores complexos impactam a saúde mental de forma muito mais profunda do que o tempo passado online.

A Academia Nacional de Ciências dos EUA estudou o tema durante um ano e concluiu que pesquisas sobre a relação entre redes sociais e saúde mental mostram "efeitos pequenos" e "associações fracas". Os autores afirmaram que "ao contrário da narrativa cultural predominante de que as redes sociais são universalmente prejudiciais aos adolescentes, a realidade é mais complexa".

Benefícios das redes sociais para jovens

Odgers também destaca que saúde mental adolescente não é apenas prejudicada pelas redes. Muitos jovens, especialmente aqueles de comunidades vulneráveis, encontram online conexões essenciais que não teriam acesso fora da internet. Eles usam essas plataformas para buscar apoio social, conectar-se com amigos, criar conteúdo e se divertir.

Em suas pesquisas analisando dados de celulares de adolescentes, Odgers observa que o comportamento online deles é absolutamente normal para sua faixa etária. Buscam consumir cultura jovem, se conectam com colegas e desenvolvem habilidades digitais essenciais para seu futuro.

Jovens pertencentes a grupos marginalizados frequentemente encontram apoio crucial online. Canais de apoio via texto proporcionam forma segura de buscar ajuda, enquanto comunidades online oferecem senso de pertencimento impossível de conseguir presencialmente em alguns casos.

A importância do equilíbrio e apoio adequado

Para Odgers, a melhor estratégia envolve estabelecer expectativas altas para os jovens enquanto oferece apoio para alcançá-las. Como mãe de dois adolescentes, ela permite que seus filhos utilizem smartphones e redes sociais, mas dentro de contextos específicos relacionados ao seu desenvolvimento e responsabilidade.

Ela toma decisões baseadas em quando seus filhos demonstraram maturidade suficiente, considerando sua escola, ambiente social e rotina. Essa abordagem familiar é mais eficaz do que proibições gerais impostas por governo ou empresas.

A psicóloga argumenta que pais, educadores, jovens e reguladores precisam trabalhar juntos para construir um ecossistema digital saudável. Simplesmente proibir tecnologia crianças ignora as causas reais dos problemas de saúde mental e pode empurrar adolescentes para espaços menos regulados onde correm ainda maiores riscos.

Por que essa narrativa se tornou tão poderosa

Odgers questiona como a narrativa sobre efeitos redes sociais se tornou tão prevalente apesar das evidências limitadas. Pesquisas mostram que aproximadamente 80% dos pais e eleitores na Califórnia apoiam restrições às redes sociais, independentemente de sua ideologia política.

Para políticos, trata-se de um tema vencedor. Crianças não votam e há apoio generalizado entre adultos bem-intencionados que acreditam sinceramente que restrições melhorarão a situação. As grandes empresas de tecnologia, impopulares por vários motivos justificáveis, tornam-se vilões fáceis nesse contexto.

No entanto, Odgers aponta que questionar publicamente essa narrativa é politicamente impopular. Pesquisadores que divergem enfrentam assédio e acusações infundadas de estar financiados por empresas de tecnologia. Essa dinâmica desencoraja especialistas de apresentarem evidências que contradigam a narrativa dominante.

Perspectivas futuras e recomendações

Conforme Odgers, o foco excessivo nas redes sociais canaliza energia e recursos longe de necessidades fundamentais reais dos jovens. Quando proibições não produzirem os ganhos prometidos em aprendizagem e saúde mental, será necessário enfrentar essa realidade.

A pesquisadora recomenda que cada país examine especificamente os fatores moldando a saúde mental de sua população jovem. Isso envolve compreender contextos econômicos, segurança nas escolas, inclusão social e saúde mental dos adultos responsáveis.

Quanto aos riscos reais online, como bullying e exploração, Odgers enfatiza que a maioria dos abusos contra jovens ocorre com pessoas que conhecem em espaços onde deveriam estar seguros. Proteger adolescentes significa focar em suas casas, escolas e comunidades, além de melhorar a segurança das plataformas digitais para todos.

A estratégia ideal combina regulação responsável das empresas de tecnologia, educação digital para jovens e adultos, apoio psicológico adequado e abordagem multifatorial para problemas de saúde mental. Simplesmente proibir, segundo Odgers, não será a "solução mágica" que muitos imaginam.

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