Témiscaming enfrenta risco de colapso econômico com tarifas Trump
A cidade canadense de Témiscaming enfrenta ameaça existencial com tarifas Trump. Fábrica de papel paralizada coloca 360 empregos em risco e mobiliza moradores p...

A Ameaça das Tarifas Trump à Economia Local
As tarifas Trump Canadá transformaram a realidade de Témiscaming, uma pequena cidade do Quebec que existe há mais de um século em torno de sua fábrica de papel. Com a imposição de tarifas de até 50% sobre produtos canadenses, incluindo celulose, papelão e produtos de papelaria, a empresa proprietária da unidade — a RYAM — decidiu paralisar as operações por tempo indeterminado. Aproximadamente 360 funcionários se viram desempregados e dependentes de auxílios governamentais.
A estrutura econômica da localidade, historicamente construída em torno do moinho e das florestas abundantes em pinheiros, bétulas e abetos, entrou em colapso. A fábrica, que enviava cerca de 75% de sua produção para os Estados Unidos, produzindo papelão para embalagens de alimentos congelados e bilhetes de loteria instantânea, não consegue mais competir no mercado internacional sob essas condições tarifárias.
Impacto Devastador no Tecido Social
O fechamento afetou não apenas os operários diretos, mas toda a comunidade. Para moradores como Nadine Suley, essa crise econômica cidade canadense representa muito mais que desemprego — significa a extinção de um modo de vida inteiro. Casas que poderiam ser vendidas rapidamente agora acumulam placas de venda, com o valor dos imóveis despencando dramaticamente.
Profissionais de serviços essenciais, desde funcionários de supermercados até médicos de pequenos hospitais locais, temem precisar abandonar a cidade em busca de alternativas econômicas. Ronnie Raymond, cuja família trabalha na fábrica há gerações, expressa a preocupação generalizada: "Se a fábrica fechar, a cidade vai virar uma cidade fantasma".
Movimento de Recompra Coletiva
Diante dessa crise, a comunidade local organiza-se para implementar uma recompra coletiva fábrica, repetindo um feito histórico de 1973. Naquela época, quando o antigo proprietário americano ameaçou encerrar as operações, trabalhadores e gestores se uniram, aceitaram corte salarial de 10% e compraram coletivamente a empresa. O empreendimento evoluiu para a Tembec, uma companhia internacional de propriedade quebequense com unidades na América do Norte e França.
Stéphane Lefebvre, líder sindical cuja família trabalha na fábrica há três gerações, coordena os esforços atuais. Ele afirma: "Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar". No entanto, reconhece que o sucesso depende de apoio significativo do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec, seja por medidas de alívio tarifário ou financiamento direto.
Disparidades nas Respostas Governamentais
Enquanto isso, o setor florestal Canadá permanece em segundo plano nas prioridades governamentais. A ministra da Indústria, Mélanie Joly, ameaçou aplicar sanções à siderúrgica Stelco caso demitisse funcionários, oferecendo proteção ao setor de aço. Simultaneamente, Carney e o primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, anunciaram um pacote de investimentos de quase C$ 9 bilhões para apoiar os setores siderúrgico e automobilístico da província.
Em contraste, o governo afirma ter disponibilizado apenas C$ 400 milhões para o setor florestal em áreas rurais e remotas. Sébastien Lemire, deputado do Bloc Québécois, expressa preocupação com essa "falta de ação" do governo Carney para com Témiscaming e o setor florestal de Quebec.
Contexto Econômico Mais Amplo
Em linhas gerais, a economia canadense resistiu razoavelmente à guerra comercial em curso com os Estados Unidos, seu principal cliente comercial. A taxa de desemprego nacional permaneceu estável em torno de 6,5% desde a implementação das tarifas de Trump, com crescimento econômico moderado porém consistente. Contudo, essa perspectiva nacional mascara focos severos de dificuldade em setores diretamente atingidos pelas tarifas americanas de até 50%.
Setores como aço, alumínio, automóveis e, especialmente, madeira, celulose e papel enfrentam pressões extraordinárias. A análise detalhada revela que uma perda equivalente de 10% dos empregos em cidades maiores como Toronto, Montreal ou Vancouver geraria pressão política massiva, enquanto o impacto em localidades como Témiscaming passa despercebido nas capas dos noticiários nacionais.
Efeitos em Cadeia no Setor Florestal
A paralização da fábrica já provoca impactos em cadeia em toda a região. Serrarias e empresas de transporte rodoviário sentem os efeitos colaterais. Um empreiteiro local relatou à BBC ter precisado demitir 13 funcionários como consequência da recessão econômica local.
O prefeito Alain Gauthier descreve as tarifas americanas como "uma bomba destinada a acabar com nossa produção industrial no Canadá". Ele advocacia pela implementação de tarifas retaliatórias canadenses sobre produtos de papelão importados dos Estados Unidos, que atualmente entram no país sem cobrança de tarifas.
Perspectivas e Esperanças Futuras
Frank Dottori, engenheiro aposentado que liderou a compra coletiva da fábrica na década de 1970, oferece perspectivas sóbrias porém esperançosas. Aos mais de 80 anos, ele ressalta que o sucesso naquela época foi considerado absurdo, mas alcançado através de organização, carisma e determinação. Para a geração atual, ele recomenda organização similar e ressalta que a suspensão das tarifas americanas é fundamental para viabilidade econômica de longo prazo.
Muitos trabalhadores depositam esperanças nas próximas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Especulam que os resultados aumentarão pressão sobre Trump — cujos índices de aprovação vêm declinando — para reduzir algumas tarifas canadenses. Recentemente, tarifas sobre alguns produtos canadenses foram suspensas após articulação da senadora republicana Susan Collins do Maine, embora essas mudanças não contemplem produtos de Témiscaming.
A preocupação temporal também agrava a situação. Trabalhadores temem que, com a chegada do inverno, temperaturas abaixo de zero congelem equipamentos da fábrica paralisada, causando danos que tornariam ainda mais difícil sua reabertura. Nadine Suley afirma: "Aceitaremos qualquer ajuda que pudermos receber".
Enquanto isso, Stéphane Lefebvre permanece determinado, afirmando: "Estamos no jogo 7 agora. Vamos jogar até o apito final".