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Batistas voltam aos holofotes após Lava Jato

Conheça a trajetória de Wesley e Joesley Batista, donos da JBS, desde a ascensão até escândalos da Lava Jato e retorno aos holofotes internacionais.

Batistas voltam aos holofotes após Lava Jato
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A trajetória extraordinária dos irmãos Batista e a JBS

Os irmãos Wesley e Joesley Batista conquistaram notoriedade internacional não apenas pelo sucesso empresarial da JBS, maior produtora de carne do mundo, mas também por seu envolvimento nos escândalos revelados pela Operação Lava Jato. Com fortunas estimadas em US$ 5,7 bilhões cada, os Batistas representam uma das histórias mais complexas do capitalismo brasileiro, marcada por ascensão meteórica, quedas espetaculares e um retorno surpreendente aos holofotes globais.

A história dos irmãos Batista está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento econômico do Brasil e à transformação do país em potência exportadora de carnes. Contudo, essa narrativa de sucesso foi abalada quando revelações de um esquema massivo de corrupção vieram à tona, colocando os empresários no centro de investigações que moldaram a política nacional durante anos. Apesar disso, Wesley e Joesley Batista conseguiram se recuperar e retomar posições de destaque nos cenários corporativo, político e diplomático.

As origens humildes da família Batista

Tudo começou em 1953, quando José Batista Sobrinho, pai dos irmãos Batista, abriu um pequeno açougue em Anápolis, Goiás. Naquela época, o Brasil passava por transformações econômicas significativas. Atraído pela possibilidade de isenção fiscal de quatro anos, José se mudou para Brasília, a recém-construída capital federal, onde iniciou suas atividades vendendo carne nas cantinas dos canteiros de obras.

O empreendedor visionário logo adquiriu seu primeiro frigorífico, também em Goiás, iniciando uma operação que se expandiria dramaticamente nas décadas seguintes. Em 1972, renomeou a empresa para Friboi e teve dois filhos nascidos com apenas dez meses de diferença: Wesley e Joesley, que cresceriam para revolucionar a indústria de carnes brasileira.

A modernização da indústria brasileira de carnes

No período em que Wesley e Joesley nasceram, o Brasil possuía vastas extensões de pastagem e aproximadamente 105 milhões de cabeças de gado, sendo o quarto maior produtor mundial de carne. Todavia, enfrentava um desafio significativo: apenas 12% do rebanho era abatido anualmente, comparado com 24% na Argentina e 40% nos Estados Unidos.

O governo brasileiro reconheceu o potencial e decidiu transformar a carne bovina em negócio de exportação estratégico. Transferiu a pecuária para Mato Grosso e financiou a modernização dos frigoríficos localizados próximos aos negócios familiares em Goiás. Com terras e salários baratos, o país rapidamente começou a competir no mercado internacional de carnes enlatadas, hambúrgueres e ração animal.

A ascensão dos irmãos Batista no comando da empresa

Wesley e Joesley cresceram no ramo desde a adolescência, comprando e vendendo gado e atendendo clientes. Ambos abandonaram a escola aos 17 anos para administrar os matadouros da família. Durante os anos 1980 e 1990, seu irmão mais velho, José Júnior, liderou a Friboi enquanto o pai se afastava gradualmente dos negócios.

Os irmãos Batista assumiram a responsabilidade pela expansão agressiva da companhia, incorporando a filosofia de que "crescimento está no DNA". Entre 1993 e 2005, adquiriram 12 matadouros e unidades de processamento, aproveitando a tendência de consolidação do mercado. Conforme supermercados substituíam os pequenos açougues, as operações menores não conseguiam atender à demanda por volumes maiores e controles sanitários mais rigorosos, recorrendo aos serviços dos Batista.

A expansão internacional da JBS

Em 2004, transferiram a sede para São Paulo. No ano seguinte, José Júnior ingressou na política, deixando os negócios exclusivamente com Wesley e Joesley. Naquele momento, o faturamento da Friboi atingia quase US$ 2 bilhões, consolidando seu status como milionários na casa dos 30 anos.

A oportunidade para expandir globalmente era propícia. O Brasil integrava o grupo Bric, economias emergentes que transformavam o cenário econômico mundial. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) havia lançado programas para transformar empresas brasileiras em gigantes multinacionais.

Os irmãos Batista compraram a Swift-Armour, maior exportadora de carne argentina, por US$ 200 milhões em 2005, financiados com US$ 80 milhões de empréstimo do BNDES. Em 2006, operavam 21 unidades no Brasil e cinco na Argentina, processando 20 mil cabeças de gado diariamente.

Seu objetivo seguinte era conquistar o mercado americano. Em março de 2007, a Friboi, renomeada JBS em homenagem às iniciais do pai, teve a melhor estreia na bolsa de valores da história do Brasil até então. Meses depois, realizaram sua maior aquisição: a Swift & Co., terceira maior processadora de carne dos EUA, com vendas anuais de US$ 9 bilhões, custando US$ 1,4 bilhão com contribuição de US$ 500 milhões do BNDES.

O império corporativo e a Operação Lava Jato

Na década seguinte, a JBS adquiriu mais de 40 empresas em quatro continentes, consolidando sua posição como maior produtora de carne mundial. Os irmãos Batista diversificaram para frango, adquirindo participação majoritária na Pilgrim's Pride por US$ 800 milhões. Entre 2005 e 2014, investiram aproximadamente US$ 20 bilhões em expansão, com suporte financeiro massivo do BNDES, que se tornou seu maior acionista individual com quase 35% das ações.

Esse crescimento extraordinário foi abalado quando a Operação Lava Jato revelou um esquema de corrupção gigantesco envolvendo subornos a políticos em troca de contratos e favores. Os irmãos Batista confessaram ter distribuído cerca de US$ 200 milhões entre aproximadamente 1,9 mil políticos, admitindo que sem essas propinas a empresa não teria crescido tão rapidamente.

Joesley revelou que o esquema com o BNDES iniciou em 2005 com encontro envolvendo Guido Mantega, então presidente do banco. Para o primeiro empréstimo da Swift-Armour, subornaram um associado de Mantega com US$ 3,2 milhões. Confessaram ainda ter subornado três presidentes brasileiros, algo que todos negam. Entre os alegados subornados estava Michel Temer, que teria recebido US$ 4,6 milhões.

O erro do advogado e as consequências

Um momento crítico ocorreu em 2017 quando um advogado anexou acidentalmente o arquivo de áudio errado ao enviar mensagem ao Ministério Público Federal. Em vez da gravação com Temer, enviou uma conversa entre Joesley e Ricardo Saud, executivo da empresa, onde parecem admitir ocultação de informações aos promotores e discussão sobre influenciar o Procurador-Geral da República.

Após esse erro monumental, ambos se entregaram à polícia. O golpe final foi financeiro: dias antes da revelação pública, venderam US$ 90 milhões em ações da JBS. Quando o escândalo estourou, a bolsa brasileira despencou, suspendendo temporariamente negociações após queda de quase 9%. Wesley e Joesley foram presos sob suspeitas de insider trading e manipulação de mercado, acusações que sempre negaram.

Após seis meses em prisão preventiva, receberam autorização para prisão domiciliar noturna e nos fins de semana. O acordo com o Ministério Público garantiu imunidade contra processos por corrupção, mas a JBS pagou multa recorde de US$ 3,2 bilhões distribuída ao longo de 25 anos.

O retorno triunfante aos holofotes

Quando Joesley foi libertado em março de 2018, as ações da JBS subiram 3,6%. Pouco depois, aumento na demanda chinesa impulsionou lucros no Brasil em quase 116% em 2019. Naquele ano, Wesley e Joesley estrearam na lista de bilionários da Forbes com US$ 1,3 bilhão cada.

Com a pandemia de Covid-19, a Justiça suspendeu a proibição de ocuparem cargos executivos. A JBS fornecia 25% do mercado alimentício brasileiro e empregava 260 mil pessoas, tornando-os importantes demais para serem punidos. Em 2023, a Comissão de Valores Mobiliários os absolveu das acusações de uso de informação privilegiada. No ano seguinte, retornaram oficialmente ao conselho de administração.

A abertura em Wall Street e influência política

O maior obstáculo era a abertura de capital na Bolsa de Valores de Nova York. O órgão regulador americano havia negado repetidamente o pedido devido à oposição bipartidária no Congresso, onde havia grupo chamado "Ban the Batistas". Tudo mudou com o retorno de Donald Trump à Casa Branca.

A abertura ocorreu em 2025, dois dias após revelação de que o maior doador para o comitê de posse de Trump havia sido a Pilgrim's Pride, subsidiária da JBS, com contribuição de US$ 5 milhões, cinco vezes maior que gigantes da tecnologia. A estreia em Wall Street foi sucesso estrondoso, aumentando a fortuna de cada irmão em US$ 200 milhões. Hoje, cada um tem fortuna de US$ 5,7 bilhões.

Politicamente, os irmãos Batista agora circulam nos altos círculos diplomáticos. Joesley teve encontro particular com Donald Trump em 2025, pouco depois de EUA imporem tarifa de 50% sobre importações brasileiras, medida que Washington eliminou completamente. Um empresário brasileiro afirmou que a remoção da tarifa se deveu em 99% aos Batista. Joesley também ajudou aproximar Trump e Lula e desempenhou papel importante em operações dos EUA na Venezuela.

Os desafios éticos e ambientais

Apesar do sucesso financeiro, a JBS enfrentou múltiplas acusações de práticas questionáveis. Em 2025, pagou multa de US$ 4 milhões após descoberta de que crianças da América Central trabalhavam à noite limpando fábricas da empresa nos Estados Unidos, manuseando produtos químicos e chegando à escola com queimaduras.

Em 2017, investigação revelou que a JBS comprava carne de fazenda suspeita de usar mão de obra em condições de escravidão moderna. Houve alegações de maus-tratos a animais: em 2017, a Humane Society divulgou imagens de galinhas sendo espancadas na Pilgrim's Pride; em 2018, vídeo mostrou trabalhadores espancando e mutilando leitões sem anestesia.

Acusações de desmatamento também persistiram. Em 2017, pagou multa de US$ 7,7 milhões. Em 2024, foi novamente sancionada pelas autoridades brasileiras em operação contra compra de gado de áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia, embora tenha negado irregularidade. O Procurador-Geral de Nova York processou a JBS por suposto descumprimento de promessas de atingir emissões líquidas zero até 2040.

Conclusão: grandes demais para cair

A história dos irmãos Batista e da JBS ilustra uma realidade incômoda do capitalismo contemporâneo: independentemente de envolvimento em escândalos de corrupção, quando a fortuna é suficientemente grande, o sistema mantém portas abertas. Wesley e Joesley Batista revolucionaram a indústria de carnes brasileira, transformando-a em potência global de exportação. No mundo dos negócios, são vistos como heróis empreendedores por levarem o orgulho brasileiro a Wall Street. Seu retorno aos holofotes demonstra que, no topo do sistema financeiro global, as consequências são frequentemente mitigadas pela magnitude da riqueza e influência acumuladas.

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