Governo preocupado com efeitos das sanções americanas
Governo monitora impacto das sanções dos EUA a brasileiros. Justiça alerta sobre riscos a instituições financeiras e possíveis efeitos secundários.

Preocupação do governo brasileiro com as sanções dos EUA
O Ministério da Justiça acompanha com atenção os desdobramentos das sanções dos EUA impostas a brasileiros investigados por possíveis conexões com organizações criminosas. A medida levanta preocupações não apenas sobre os atingidos diretamente, mas também sobre possíveis consequências para terceiros e instituições financeiras brasileiras.
As sanções dos EUA atingiram Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, além de três empresas brasileiras: Victory Trading Intermediação De Negócios Cobranças E Tecnologia Ltda; Pixwave Soluções De Pagamentos Ltda; e Wave Construções Inteligentes Ltda, bem como a empresa portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda.
Bloqueio de bens e efeitos colaterais
Conforme comunicado do governo americano, todos os bens dos sancionados localizados nos Estados Unidos foram bloqueados e serão reportados ao Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC). Qualquer empresa que pertença, direta ou indiretamente, em 50% ou mais aos indivíduos sancionados também sofrerá bloqueio.
Em entrevista, a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães Loula, ressaltou que a preocupação governamental vai além dos atingidos diretamente. "Não defendemos criminosos. O que tememos é que essa espetacularização gere efeitos secundários sobre pessoas que não têm ligação com o crime e sobre instituições financeiras brasileiras", afirmou.
Divergências sobre a ligação com organizações criminosas
Segundo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira não possuem vínculo com o Primeiro Comando da Capital (PCC), contrariando as acusações das autoridades norte-americanas.
De acordo com o governo dos EUA, Shimada liderava, a partir de São Paulo, uma estrutura de lavagem de dinheiro que operava em conjunto com integrantes do PCC radicados na Flórida. As autoridades americanas afirmam que o grupo movimentou mais de US$ 30 milhões em recursos de origem ilícita, utilizando criptomoedas para transferências provenientes do tráfico internacional de drogas.
Histórico criminal e investigações
Victor foi preso preventivamente em dezembro de 2024, no contexto de investigações sobre lavagem de dinheiro relacionadas ao caso Corinthians. Em janeiro de 2025, passou breve período em prisão domiciliar e foi posteriormente solto após obter habeas corpus mediante pagamento de fiança.
Recentemente, foi condenado pela 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo a cinco anos de reclusão, em regime semiaberto, pelo crime de lavagem de dinheiro. Atualmente responde ao processo em liberdade, não utiliza tornozeleira eletrônica, mas está proibido de deixar o país.
Conexões financeiras investigadas
Relatório da Polícia Civil de São Paulo indica que Victor Henrique de Oliveira Shimada aparece em cadeia financeira que conecta sua empresa à Wave Intermediações e à UJ Football Talent. A UJ foi mencionada na delação premiada de Antonio Vinicius Lopes Gritzbach como empresa supostamente relacionada a Danilo Lima de Oliveira, conhecido como "Tripa", apontado como integrante do PCC.
O relatório também ressalta que Gritzbach apareceu em análises financeiras associado à Wave, empresa que mantinha intensa movimentação com a Victory Trading. Contudo, a investigação não afirma que Victor Shimada seja integrante do PCC, mas sustenta que estaria inserido em fluxo financeiro que se cruza com pessoas e empresas citadas em apurações sobre a facção.
Papel de Stella nos supostos ilícitos
Segundo os EUA, Stella é parente de Shimada e atuou como sua secretária. O governo americano afirma que ela funcionou como intermediária na coleta de grandes quantias em dinheiro, fornecendo serviços logísticos para operações de lavagem. Ela não possui antecedentes criminais e não responde a processos judiciais.
Defesa da cooperação internacional
A secretária nacional de Justiça defendeu maior cooperação entre Brasil e Estados Unidos. Segundo ela, o avanço das investigações americanas foi possível graças ao trabalho das autoridades brasileiras, mas o intercâmbio de dados poderia ter sido mais amplo. "Não acreditamos em medidas unilaterais. Os Estados Unidos atuaram com base em informações que saíram do Brasil. Se tivessem compartilhado mais informações conosco, poderíamos ajudá-los", declarou.
Precedentes internacionais e riscos
Como exemplo dos riscos potenciais, Loula citou o caso mexicano. Em junho, os Estados Unidos anunciaram sanções contra três importantes instituições financeiras mexicanas — CIBanco, Intercam Banco e corretora Vector Casa de Bolsa —, acusadas de facilitar operações de lavagem de dinheiro relacionadas ao tráfico de drogas. As medidas restringiram o acesso dessas instituições ao sistema financeiro americano, ilustrando o impacto que sanções similares podem ocasionar.
Contexto das medidas contra organizações criminosas
A preocupação do governo havia sido sinalizada desde a decisão do governo americano de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Essa classificação aumentou significativamente os riscos de aplicação de sanções financeiras a pessoas e empresas investigadas por possível envolvimento com essas facções, mesmo quando a ligação não está completamente comprovada pelas autoridades brasileiras.