PT Notícias. O seu jornal local
Economia

Miami se consolida como refúgio dos ultrarricos

Miami ultrapassou Nova York como destino dos ultrarricos. Conheça por que a cidade atraiu bilionários e como os preços explodiram nos últimos anos.

Miami se consolida como refúgio dos ultrarricos
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A transformação de Miami em polo dos ultrarricos

Nos últimos anos, Miami se consolidou como o principal destino escolhido pelos ultrarricos do mundo. A cidade costeira da Flórida ultrapassou até mesmo Nova York em termos de custo de vida, segundo dados de 2024 do Escritório de Estatísticas dos Estados Unidos. Este fenômeno que elevou Miami ao status de refúgio bilionário não ocorreu por acaso, mas resulta de uma convergência de fatores econômicos, fiscais e de estilo de vida que atraíram grandes fortunas globais.

Em março deste ano, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, realizou uma das maiores transações imobiliárias da história da cidade ao adquirir uma mansão em construção de aproximadamente 2.800 metros quadrados na ilha particular de Indian Creek por US$ 170 milhões, equivalentes a cerca de R$ 872 milhões. Porém, este não permaneceria como o imóvel mais caro disponível por muito tempo. O corretor de títulos mobiliários John Daveney oferece sua residência em Key Biscayne pelo valor recorde de US$ 237 milhões, aproximadamente R$ 1,2 bilhão.

A mansão que virou ícone do cinema

A propriedade de Daveney possui um histórico cinematográfico peculiar. Trata-se da mesma mansão que aparece no clássico filme Scarface de 1983, dirigido por Brian de Palma e estrelado por Al Pacino. Na obra, o imóvel representa a residência do traficante Frank López, e é lá onde a personagem Elvira, interpretada por Michelle Pfeiffer, desce por um icônico elevador de vidro em uma das cenas mais memoráveis do cinema.

A presença de personalidades bilionárias em Miami não se limita a Zuckerberg. Jeff Bezos, fundador da Amazon; Larry Page e Sergei Brin, criadores do Google; assim como Ivanka Trump e seu marido Jared Kushner, mudaram-se para a região nos últimos anos. Esta concentração de líderes empresariais influentes criou um efeito multiplicador nos mercados locais.

Os fatores que atraem os bilionários para Miami

Segundo especialistas em mercado imobiliário, Miami oferece um conjunto único de vantagens para indivíduos com altas fortunas. Mayi De la Vega, fundadora da One Sotheby's International Realty, uma das principais corretoras de imóveis ultraluxuosos do sul da Flórida, destaca que a cidade apresenta "criminalidade baixa, clima excelente, comunidades exclusivas e, principalmente, a ausência de impostos estaduais".

E.B. Solomont, jornalista especializado em mercado imobiliário residencial do The Wall Street Journal, explica que "existe uma grande quantidade de pessoas de alta renda que se mudaram para a Flórida em busca dos benefícios oferecidos pela vida em Miami". O grande diferencial é que "quando você tem um, dois ou três líderes empresariais influentes que se mudam, outros observarão os benefícios e irão segui-los".

O impacto da pandemia de COVID-19

A pandemia de COVID-19 marcou um ponto de inflexão na atração de bilionários para Miami. Enquanto estados como Nova York, Califórnia e Illinois implementavam restrições rigorosas de saúde pública, a Flórida, sob a liderança do governador republicano Ron DeSantis, levantou as restrições rapidamente. A abertura de praias, reabertura de escolas, bares e restaurantes apenas três meses após a declaração de emergência desencadeou uma migração massiva de pessoas abastadas.

Solomont observa que "durante a pandemia, os americanos perceberam que a Flórida estava aberta para os negócios". Combinado com o status de paraíso fiscal, onde residentes não pagam impostos estaduais, Miami se tornou extraordinariamente popular entre os ultra-ricos. Os primeiros a chegar incluíram Peter Thiel, co-fundador do PayPal, e Ken Griffin, criador do fundo Citadel, estabelecendo um precedente que outros seguiram.

O fenômeno acumulativo de prestígio e demanda

De la Vega identifica um "fenômeno acumulativo" associado à moda e ao prestígio. Bilionários raciocinam que "se esta pessoa tem o mesmo dinheiro que eu e comprou ali, talvez eu também deva comprar ali". Este comportamento de validação social multiplicou as ofertas no mercado de ultraluxo em certas regiões, impulsionando os preços exponencialmente.

O mercado imobiliário de Miami entrou em uma nova era de "imóveis troféus", conforme afirma De la Vega. As vendas de casas com valor superior a US$ 60 milhões aumentaram significativamente. Em 2025, o último ano completo de registros, as vendas de imóveis acima desse patamar totalizaram mais de US$ 517 milhões, equivalentes a R$ 2,7 bilhões.

Indian Creek: o bunker dos multimilionários

A ilha particular de Indian Creek representa a quintessência do exclusivismo em Miami. Conhecida como o "bunker dos multimilionários", a ilha abriga as mansões de Zuckerberg, Bezos e Ivanka Trump. Apesar de ter tamanho semelhante ao Central Park de Nova York, Indian Creek possui seu próprio prefeito e sistema de segurança dedicado. O acesso ocorre através de uma ponte branca discreta, vigiada por duas guaritas de segurança.

De la Vega explica que Indian Creek "continua liderando em termos de preços astronômicos". A ilha oferece lotes grandes, acesso a água para proprietários de barcos e segurança incomparável. Como ilha particular, apresenta campo de golfe próprio, e seus terrenos são vendidos por valores que atingem US$ 200 milhões, aproximadamente R$ 1 bilhão cada.

North Bay Road: a rua mais valiosa da América

Além de Indian Creek, o bairro de North Bay Road em Miami Beach consolidou-se como endereço privilegiado. Esta via com aproximadamente 6,5 quilômetros abriga residências de celebridades como Shakira e do casal David e Victoria Beckham. De acordo com cálculos do The Wall Street Journal, North Bay Road contém cerca de US$ 1,7 bilhão em propriedades imobiliárias, o que a torna a rua com maior valor patrimonial de todos os Estados Unidos.

O mercado de ultraluxo também se estende a outras regiões tradicionais de Miami. Imóveis com valor superior a US$ 60 milhões estão disponíveis em Coconut Grove, Coral Gables e Key Biscayne, ampliando as opções para investidores bilionários além das ilhas particulares.

A evolução dos preços: antes e depois da pandemia

John Devaney relata que quando adquiriu os lotes que compõem sua mansão de US$ 237 milhões em 2003, pagou US$ 15 milhões pelo primeiro lote e US$ 15 milhões pelo segundo. Estes eram os preços normais no mercado imobiliário de Miami pré-pandemia. Mayi De la Vega recorda que uma propriedade de Shaquille O'Neill em Star Island foi vendida por US$ 16 a US$ 18 milhões naquele período.

A disparidade entre os preços de então e os atuais evidencia o crescimento extraordinário do mercado nos últimos anos. Uma das principais causas identificadas pelos analistas é a concentração de riqueza entre os 0,1% mais abastados da população mundial.

A concentração de riqueza e seu impacto nos preços

Segundo o "Índice da Desigualdade", elaborado por economistas da Universidade da Califórnia em Berkeley e da Escola de Economia de Paris, o patrimônio do 0,1% mais rico da população multiplicou-se em quase 13 vezes nos últimos 50 anos. Este índice considera como parte do 0,1% as pessoas com patrimônio superior a US$ 43 milhões, aproximadamente R$ 220 milhões.

Esta disponibilidade massiva de recursos explica como os preços dispararam. Solomont aponta que "os corretores de imóveis dizem que o valor é aquilo que alguém está disposto a pagar por alguma coisa". Para indivíduos com bilhões em contas bancárias, comprar uma residência por US$ 60 milhões não representa um gasto extraordinário, e muitos realizam estas transações em dinheiro vivo.

O aumento do custo de vida em Miami

Os efeitos deste fenômeno transcendem os ultrarricos e impactam toda a população. Os dados de 2024 indicam que a área de Miami, Fort Lauderdale e Palm Beach ultrapassou Nova York em custo de vida. A região conhecida como Costa Dourada apresenta atualmente um custo de vida aproximadamente 5% mais alto que a área metropolitana de Nova York e seus subúrbios.

Os preços ao consumidor no sul da Flórida aumentaram 36% desde 2019, segundo o Escritório de Estatísticas Trabalhistas dos Estados Unidos. O canal Fox Business reportou que os preços de habitação dispararam 79% desde a pandemia, e o prêmio médio anual de seguro residencial da região é o mais elevado do país.

A possível bolha imobiliária

Os analistas questionam se o crescimento do mercado de ultraluxo em Miami é sustentável a longo prazo. Solomont levanta a questão provocativa: "De certa forma, as pessoas querem saber se existe uma bolha. É realista pagar US$ 75 milhões por uma casa perto da água?"

Paradoxalmente, apesar do pico de entrada de novos residentes durante a pandemia, o sul da Flórida vem perdendo habitantes nos últimos anos. Este fenômeno sugere que, embora os ultrarricos continuem investindo em propriedades, a população geral enfrenta dificuldades crescentes para se manter na região devido aos custos inflacionados.

O mercado imobiliário de Miami, especialmente no segmento de ultraluxo, continua expandindo seus limites. Enquanto os bilionários seguem chegando e pagando somas recorde por imóveis, as questões sobre a sustentabilidade e realismo destes preços permanecem em aberto para analistas e economistas.

Também na sua zona

Criptomoedas

BNB $604 ▲ 0.18%
Solana (SOL) $77 ▲ 0.98%
XRP $1.0300 ▼ 0.53%

Divisas

USD/EUR0.8669
EUR/GBP0.8577