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Trump quer mudar termo IA para Superinteligência há 70 anos

Saiba por que Trump insiste em renomear inteligência artificial como superinteligência e qual impacto dessa mudança na tecnologia e mercado global.

Trump quer mudar termo IA para Superinteligência há 70 anos
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A pressão de Trump para renomear a inteligência artificial

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem dedicado esforços significativos em defender uma mudança de nomenclatura para a área de tecnologia. Sua insistência em substituir o termo "inteligência artificial" por "superinteligência" ganhou destaque internacional quando apresentou a proposta durante seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Naquela ocasião, Trump argumentou que "o nome inteligência artificial faz soar como se ela fosse falsa", sugerindo que "de agora em diante, todos os documentos dos EUA e, espera-se, de todo o mundo, vão utilizar o nome Superinteligência".

O processo de decisão sobre a nomenclatura

Antes de se estabelecer em "Superinteligência", o presidente americano utilizou sua rede social Truth Social para realizar consultas públicas sobre qual seria a melhor designação. A primeira enquete oferecia opções como "Inteligência Superior (IS)", "Inteligência Extrema (IE)" e "Inteligência Suprema (IS)", todas traduzidas para o português. Dois dias depois, Trump realizou nova votação, desta vez com apenas duas alternativas: "Superinteligência" e "Inteligência Superior".

De forma controversa, Trump declarou que passaria a tratar como "inimigo" qualquer pessoa ou instituição que continuasse utilizando a expressão "inteligência artificial" em lugar de "superinteligência". Essa abordagem confrontadora revelou o quanto o presidente dos EUA considera importante essa questão nominativa, embora não tenha fornecido explicações técnicas sobre como tal alteração seria implementada no mercado tecnológico mundial.

A história do termo inteligência artificial

Para compreender a dificuldade dessa mudança proposta por Trump, é essencial conhecer a trajetória do termo "inteligência artificial". O conceito existe há mais de sete décadas, tendo suas raízes nas pesquisas do matemático e cientista da computação Alan Turing entre as décadas de 1940 e 1950, período em que este investigava máquinas capazes de pensar e demonstrar raciocínio semelhante ao humano.

A nomenclatura formal foi estabelecida em meados de 1955, nos Estados Unidos, graças ao trabalho colaborativo de pesquisadores renomados, incluindo John McCarthy, Marvin Minsky, Claude Shannon e Nathaniel Rochester. Esses cientistas necessitavam de uma terminologia específica para designar pesquisas que combinavam matemática, engenharia e estatística, criando máquinas com capacidade de raciocínio que não se encaixavam nas categorias tradicionais de software da época. John McCarthy foi responsável por cunhar oficialmente a expressão "inteligência artificial" em 1955, escolha que visava diferenciar esse campo de pesquisa da cibernética, termo criado por Norbert Wiener em 1948.

Perspectivas acadêmicas sobre a mudança de termo

Anderson Soares, considerado o brasileiro mais influente no campo de inteligência artificial e fundador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goiás, expressa preocupações fundamentadas sobre essa tentativa de renomeação. De acordo com Soares, o próprio conceito de inteligência ainda carece de definição precisa nas ciências biológicas, naturais e no domínio tecnológico. "O que chamamos hoje de inteligência artificial está relacionado à capacidade das máquinas de realizar tarefas que associamos à inteligência humana", explica o pesquisador.

Para Soares, a motivação por trás da mudança proposta por Trump parece estar mais associada a objetivos políticos do que a benefícios genuinamente construtivos. "O objetivo de mudar o nome me parece muito mais um contragolpe na questão de paralisar o desenvolvimento da IA. Parece mais um ato político do que efetivamente algo construtivo e que contribua para o que está acontecendo em termos de desenvolvimento", avalia.

A dimensão política e estratégica da proposta

Cleber Zanchettin, professor de Engenharia da Computação da Universidade Federal de Pernambuco e especialista em inteligência artificial, analisa criticamente o discurso de Trump na ONU. O acadêmico observa que o presidente americano iniciou sua fala afirmando "bem-vindos ao novo mundo da superinteligência", para em seguida questionar "vamos ver se isso vai dar certo". Para Zanchettin, essa abordagem representa fundamentalmente "uma jogada de marketing para chamar atenção, sem efeito prático" significativo.

Allan Pscheidt, professor e pesquisador em tecnologia, oferece uma interpretação alternativa sobre as motivações subjacentes. De acordo com Pscheidt, a proposta de Trump não representa uma mudança efetiva na definição científica ou técnica da tecnologia, mas funciona como uma demonstração de poder e soberania dos Estados Unidos no cenário internacional de desenvolvimento de inteligência artificial. "A gente está vivendo algo parecido com o que aconteceu na corrida para a Lua e na corrida espacial. Estamos passando agora para a corrida pela AGI (Inteligência Artificial Geral)", observa Pscheidt. "Quando Trump vem com a ideia de cunhar o termo 'superinteligência', ele está avisando ao mundo que os EUA vão atingir a AGI muito em breve e que, com isso, vão mostrar sua soberania tecnológica".

AGI: A inteligência artificial geral

O termo AGI, sigla em inglês para Artificial General Intelligence (Inteligência Artificial Geral), descreve uma forma hipotética de inteligência artificial capaz de realizar uma vasta gama de tarefas intelectuais em nível equivalente ou superior ao dos seres humanos. É importante destacar que, até o presente momento, não existe comprovação científica de que tal superinteligência já tenha sido desenvolvida ou alcançada por qualquer entidade, seja governamental ou corporativa.

Implicações para a aceitação pública da tecnologia

Cleber Zanchettin levanta preocupações legítimas sobre as possíveis consequências de adotar termos como "superinteligência" ou "inteligência suprema". Considerando que grande proporção da população ainda possui conhecimento limitado sobre tecnologia, produtos rotulados como "inteligência artificial" já enfrentam certa rejeição ou temor no mercado consumidor. "Introduzir um termo como 'superinteligência' ou 'inteligência suprema' pode soar como uma ameaça aos humanos e aumentar a rejeição do público", ressalta o professor. "Poucos países e populações abraçaram a tecnologia de fato, e a maioria das pessoas ainda está tentando entender o que é a IA básica e como ela funciona".

Dados empíricos corroboram essas preocupações. Mais da metade dos brasileiros (52%) afirma estar mais preocupada do que animada com o avanço da inteligência artificial, conforme revelado por pesquisa recente do Pew Research Center. A percepção nos Estados Unidos segue padrão similar: aproximadamente nove entre cada dez americanos declararam estar mais preocupados do que entusiasmados com a possibilidade de a inteligência artificial um dia superar a inteligência humana, segundo dados de pesquisa divulgados pela CNN em setembro.

A evolução e inserção da IA no cotidiano

Com o avançar e a popularização da tecnologia ao longo das décadas, a inteligência artificial progressivamente integrou-se às atividades diárias da população. Exemplos práticos incluem sistemas de reconhecimento facial utilizados por instituições bancárias, veículos semiautônomos, drones, alto-falantes inteligentes e sistemas de câmera em dispositivos móveis. Mais recentemente, a partir de 2017, ganhou momentum a área de inteligência artificial generativa, responsável pelo desenvolvimento de ferramentas revolucionárias como o ChatGPT, capaz de criar conteúdo textual, visual, audiovisual e musical.

Perspectiva sobre a aceitação tecnológica futura

Anderson Soares oferece uma análise histórica sobre como as ondas tecnológicas tipicamente se desenvolvem. Segundo sua avaliação, "as ondas tecnológicas costumam passar por fases relativamente previsíveis: primeiro provocam medo e desconfiança; depois vêm a aceitação e o encantamento; e, com o tempo, a tecnologia passa a ser compreendida e deixa de parecer algo extraordinário". Essa perspectiva sugere que, independentemente de qual termo seja utilizado, a sociedade eventualmente compreenderá e normalizará essa categoria tecnológica fundamental para o futuro.

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