Vício em celular: como terapia ajuda a recuperar o controle
Conheça histórias reais de pessoas que lutam contra vício em celular e descobra como terapia profissional está ajudando na recuperação do uso excessivo de smart...

O ciclo viciante dos smartphones modernos
O vício em celular tornou-se um problema de saúde cada vez mais frequente em todo o mundo. Muitas pessoas passam horas diárias conectadas aos seus dispositivos, enfrentando dificuldades significativas para interromper esse padrão de comportamento. Casos como o de Marios, um personal trainer que passa até 14 horas por dia utilizando seu telefone, ilustram como o vício em celular pode se desenvolver de forma alarmante e afetar a qualidade de vida.
Marios recentemente iniciou um programa de 12 sessões de terapia particular para lidar com sua compulsão digital. Durante nossas conversas, ele descreveu a experiência como carregar um "traficante no bolso", referindo-se ao fato de que seu aparelho está constantemente apitando e enviando notificações que amplificam seu desejo de usar o dispositivo. A necessidade de responder imediatamente é tão intensa que ele nem conseguiu responder uma mensagem minha durante uma sessão terapêutica, tamanha a dificuldade de se desconectar.
Estatísticas alarmantes sobre dependência digital
Os dados apontam para um cenário preocupante regarding o tempo que passamos com nossos aparelhos. Uma pesquisa recente realizada pela Deloitte envolvendo mil adultos revelou que 70% dos entrevistados admitem passar tempo excessivo em seus telefones. Este número cresce continuamente, e especialistas em dependência relatam um aumento significativo de clientes completamente dependentes de seus dispositivos.
Informações do UK Addiction Treatment Centres (UKAT), que atende aproximadamente 3,5 mil pessoas anualmente, demonstram o crescimento alarmante do problema. No ano passado, um em cada três clientes tratados por dependência de drogas também apresentava dependência secundária de telefone. Em 2019, essa proporção era de apenas um em cada dez. Alguns clientes chegam até a desistir do tratamento para seus vícios principais porque se recusam a desligar de seus dispositivos.
Como funciona o vício em telefone no cérebro
A terapeuta-chefe Kelly Watson, do centro de reabilitação Steps Together, explica que o vício em telefone funciona através do sistema de recompensa do nosso cérebro. Sempre que recebemos uma mensagem, uma curtida nas redes sociais ou descobrimos uma informação nova, o cérebro libera dopamina, um mensageiro químico que regula o prazer e a motivação.
Para algumas pessoas, essa necessidade de estímulo se torna excessiva e patológica. O padrão de comportamento assume o controle, fazendo com que horas e até dias inteiros desapareçam no mundo online. Watson afirma que "pode afetar qualquer pessoa, de qualquer origem", já que todos nós possuímos telefones e circuitos cerebrais semelhantes.
Histórias de recuperação: James e sua luta contra a dependência
James, um homem de 48 anos que recebe tratamento em um centro Steps Together em Leicester, exemplifica como a dependência de telefone pode se manifestar de forma grave. Ele buscou inicialmente ajuda para vício em álcool, mas logo ficou evidente que sua dependência digital também estava completamente fora de controle.
Após perder seu emprego, James passava dias inteiros rolando redes sociais, verificando sites de notícias e se fixando no que acontecia em diferentes partes do mundo. Se publicava algo nas redes sociais, ficava acordado durante a noite verificando curtidas e comentários. A experiência o deixava como refém do mundo digital.
O aspecto mais perturbador era que James não encontrava mais prazer em usar o telefone. "Eu ficava com receio", relembrou. "Parecia que um pedaço da minha alma tinha sido sugado, mas eu não conseguia parar." Este é um padrão comum entre aqueles que sofrem de vício digital genuíno.
Programas de reabilitação e terapia profissional
O centro de reabilitação Rainford Hall, localizado em St Helens no norte da Inglaterra, trata pessoas com diversos vícios, incluindo drogas, álcool, jogos de azar e dependência digital. Kelly Watson trabalha com os clientes para reduzir gradualmente seu tempo de tela enquanto descobrem quais pensamentos e sentimentos surgem quando não estão com seus dispositivos.
Os clientes geralmente permanecem no mínimo 28 dias no centro residencial, recebendo terapia em grupo e individual. A terapeuta reconhece que muitos chegam preocupados e com medo de abrir mão de seus telefones, argumentando que precisam dos aparelhos para o trabalho ou para manter contato familiar. Watson trabalha para ajudá-los a entender que frequentemente usam a terapia para celular para se dissociar de realidades difíceis em suas vidas.
Organizações de apoio: Internet and Technology Addicts Anonymous
Além dos centros formais de reabilitação, pessoas ao redor do mundo se unem para apoiar umas às outras. Em 2017, a Internet and Technology Addicts Anonymous (ITAA) foi criada, inspirada nos Alcoólicos Anônimos, oferecendo um programa de 12 passos especificamente para dependência digital.
Jenny, uma membro do ITAA, vivenciou dependência extrema no auge de seu vício. Ela não dormia por dias, mal comia ou bebia, e não se importava qual conteúdo estivesse consumindo. "Eu perdia partes da minha vida", explica a mulher de 30 anos. "Eu não percebi o quanto estava viciada até estar em abstinência e ter que pedir a amigos e familiares para manter meus dispositivos trancados."
A situação era tão grave que Jenny pensava "que iria morrer se não assistisse a algo". Quando recaía, pedia emprestado dispositivos escondido, levando a sentimentos de culpa e vergonha que a levavam a consumir ainda mais conteúdo. Após encontrar o ITAA e completar o programa, Jenny agora está em recuperação há cinco anos sem assistir nem transmitir conteúdo, utilizando apenas um telefone básico.
Caso Tom: quando o vício se torna uma ameaça existencial
Outro membro do ITAA, Tom, relata como seu vício o levou "a lugares sombrios". Ele podia perder meses inteiros consumindo conteúdo simultaneamente através de múltiplos aparelhos. "Eu passava 10 horas seguidas consumindo conteúdo — podia estar ouvindo música, assistindo algo no YouTube, navegando nas redes sociais e jogando videogame — tudo ao mesmo tempo", descreve.
Este padrão continuava indefinidamente, mesmo após caminhar por duas horas para "descansar". O vício foi tão avassalador que levou Tom a perder seu negócio e seu senso de propósito. Ele relata ter desenvolvido pensamentos suicidas. Hoje, após reduzir significativamente seu tempo de tela, Tom está "começando a sentir alegria real na vida novamente" através de atividades como jogar pickleball, atividades ao ar livre e exercícios.
Orientações profissionais para reconhecer e enfrentar o problema
Hilda Burke, psicoterapeuta credenciada pela British Association of Counselling and Psychotherapy (BACP), escreveu recentemente "Phone Addiction Workbook" após observar um crescimento no número de clientes buscando ajuda. Ela recomenda que pessoas preocupadas com seu tempo de tela analisem seu próprio comportamento.
Burke sugere fazer perguntas fundamentais como: "O que estava acontecendo naquele dia? Eu estava esperando alguém responder a uma mensagem?" A espera por respostas frequentemente causa desconforto inicial que nos leva a usar o telefone como distração. Em vez de ir online, Burke recomenda tentar outras atividades: chamar um amigo, correr, ler um livro.
Ela também enfatiza que é importante não sentir culpa ou vergonha pelo comportamento passado. Em vez disso, as pessoas devem focar em como lidarão com situações semelhantes no futuro. Esta abordagem compassiva é fundamental para a recuperação sustentável do uso excessivo de smartphone.
Recursos tecnológicos como ferramenta de controle
Muitas empresas de telefonia introduziram recursos nativos que ajudam usuários a monitorar seu tempo de tela e restringir o acesso a certos aplicativos. Embora estes recursos não resolvam completamente o problema, funcionam como ferramentas úteis para quebrar o ciclo viciante em que muitos caem.
A esperança na recuperação: a história de Marios continua
Voltando a Marios, ele permanece esperançoso quanto aos resultados de seu programa de terapia. Enquanto trabalha em sua dependência digital, também está aprendendo espanhol através de aplicativos em seu telefone, reconhecendo que nem tudo sobre a tecnologia é prejudicial.
Marios relata que estabelece diariamente a intenção de não usar seu telefone tanto quanto antes, e esta prática está fazendo diferença mensurável. "A cada dia, estou lentamente começando a aproveitar as coisas novamente. É possível, tenho certeza", afirma com determinação. Sua recuperação demonstra que, com ajuda profissional e determinação pessoal, é possível recuperar o controle sobre a relação com a tecnologia e redescobrir alegria nas atividades e relacionamentos fora do mundo digital.